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–  A sua filha vai este ano para a escola não é? Para que escola ela vai?

– Ela está inscrita em Ensino Doméstico na escola —–.

– Ensino Doméstico? Já tinha ouvido falar… Mas a senhora por acaso é professora?

– Por acaso até sou. Dei aulas até ela nascer e depois optei por abandonar o ensino.

– Ah, mas sabe, não pode protegê-la para sempre.

– Está a falar de bullying?

Ela fez que sim com a cabeça.

– Sei que existe e tomei conhecimento de coisas extremamente graves enquanto leccionei, no entanto as minhas razões são outras e que se prendem mais com o sistema de ensino em geral.

– Mas que razões são essas?

– Olhe, prefiro não falar sobre isso. Há muita coisa que está errada e com a qual não concordo mas não me sinto à vontade para lhe contar o que se passa dentro das salas de aulas.

A partir deste momento a minha interlocutora começou a demonstrar alguma inquietação por ter razões que não quis expor e muitos menos enumerar. Não me compete dizer a pais/mães que confiam no sistema de ensino público que esse mesmo sistema está a falhar, na sua generalidade, comprometendo seriamente a possibilidade de alguma vez poder ser criado um ensino de qualidade. Não me compete informar quais as dificuldades que os professores enfrentam devido à indisciplina, pais problemáticos, direcções assoberbadas com exigências do ministério e a própria incoerência de sucessivas equipas ministeriais. Os problemas não se resolvem com reformas mais ou menos mal delineadas mas sim com uma mudança total de rumo.

Além deste tema que preferi evitar, achei interessante que enviar um filho para a escola seja uma forma de “não proteger para sempre”. E que o “não proteger para sempre” se traduza em permitir que os filhos possam sofrer situações de bullying. Muito se tem falado deste tema e parece-me que há algo que muitos comentadores de cadeirão desconhecem. A escola mudou. Os miúdos também mudaram. Há 10 anos atrás os miúdos nas escolas de primeiro ciclo já não sabiam saltar ao elástico e jogar aos jogos da minha infância. Os meninos faziam wrestling no recreio porque era isso que viam na televisão. Ainda há pouco tempo mostraram miúdos de primeiro ciclo sentados no recreio a fazer pulseiras de elásticos. Por muita graça que ache às manualidades é óbvio existir algo de estranho quando crianças preferem ficar sentadas em vez de jogarem à apanhada, às escondidas e a outras brincadeiras que lhes ocorram. A falta de criatividade e de imaginação é notória. Num mundo onde já tudo está feito e os jogos de computador, smartphones e televisão são as formas mais importantes de entretenimento infantil, não é de espantar a diminuição de capacidade imaginativa. Somando a alienação parental, fruto de horários laborais cada vez menos humanos, e um ritmo de vida cada vez mais acelerado, pouco amigo de infantilidades, é natural que os comportamentos das crianças e adolescentes se modifiquem. Acessos de raiva, violência, depressão e o sentimento de impunidade proporcionam actos cada vez mais violentos entre crianças/adolescentes. Numa sociedade tão ironicamente desconectada, embora toda a gente esteja ligada à rede, onde se perde o saber como falar com alguém sem olhar a cada minuto para o ecrã do smartphone, é natural que traços como os de empatia, respeito e amor ao próximo diminuam. Abusos psicológicos com requintes de malvadez (e com recurso às redes sociais), físicos e até mesmo sexuais (sim, porque existem nas escolas abusos sexuais entre alunos independentemente do género) cometidos por menores são ignorados pela justiça deixando as escolas sem meios para lidar com estes problemas.

Não compreendo como pode fazer bem a um aluno ser assediado por colegas de escola, espancado ou humilhado publicamente. Também não entendo o vazio legal para se agir com justiça nestes casos. A pessoa com quem dialogava considerava que a possibilidade de bullying nas escolas é condição essencial para não proteger os filhos para sempre. A maioria dos pais de vítimas de bullying encolhe os ombros ou espera que a escola trate do assunto. Por experiência são raros os casos em que a escola pode fazer alguma coisa. Na maioria dos casos as vítimas remetem-se à resignação e esperam desesperadamente por cada fim de semana para poderem escapar aos agressores. Outras optam por terminar com o sofrimento de uma vez por todas. Em 2010 o bullying era a segunda causa de suicídio entre adolescentes.

Se é preciso não proteger demais é também necessário não proteger de menos. No entanto, as escolas não deveriam ser como os estabelecimentos prisionais. Os bons miúdos, aqueles que não dão problemas e que são dóceis, tornam-se carne para canhão nas mãos dos miúdos que não olham a meios para passarem um bom bocado enquanto humilham ou maltratam. A maldade é uma escolha. Como escolha que é não pode ser recompensada pela cegueira, surdez e mudez de quem vê e não faz nada para acabar com o comportamento desviante.

Conselho: se os pais sabem que os filhos sofrem bullying será mais eficaz mudar de turma ou, até mesmo, de escola. Os agressores gozam, geralmente, de imunidade/impunidade.

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