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Quando era adolescente queria ser adulta. Queria crescer porque odiava o meu corpo desengonçado e as borbulhas que teimavam em aparecer no meu rosto. Odiava-me e sempre que me olhava ao espelho sentia raiva por ser feia. Quando cresci, o ódio também aumentou. Mudava de roupa pelo menos três vezes antes de sair de casa. Acabava lavada em lágrimas de frustração porque nada me ficava bem (achava eu). Sentia vontade de me esbofetear por ter um corpo que nunca correspondia às minhas expectativas.

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Depois, fui mãe. Uma filha. Perfeita como uma gota de água e olhos de veludo. E apercebi-me que se me odiasse ela também iria aprender a odiar-se. Lentamente comecei a cultivar a compaixão por mim própria. Pela minha imperfeição não só corpórea mas também pelo meu carácter. E chorei. Chorei por muito tempo ao sucumbir ao peso da minha imperfeição. Quanto mais me queria afastar dessa consciência maior a tristeza.  Mas enquanto chorava aprendia a amar-me. A ser bondosa com o meu corpo e comigo própria.

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Passamos uma vida a almejar ou a suspirar por aquilo que nunca seremos ou já fomos. Sorvemos as palavras e bajulações terceiras “Pareces irmã da tua filha!”, “Dou-te dezoito anos!”, ” Pareces muito mais nova do que és!”, ” És tão bonita…”, “Que inveja desse corpo, pareces uma adolescente”. A nossa alegria centra-se nessas dádivas mais ou menos sinceras de terceiros. O ego incha e embebeda-se enquanto contamos a toda a gente como um dia nos confundiram por uma garota ou como alguém se espantou ao saber a nossa idade. E passamos uma existência a tentar caçar o inalcançável enquanto desprezamos o que temos no momento. E quando a vida passa por nós e nos deixa as suas marcas, olhamos para trás e só nos resta o desespero conformado. O  tempo passou e o desprezo continua vivo dentro de nós, ocultado pelos nossos fracos sorrisos de pretenso contentamento.

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Entretanto vemos as nossas filhas a cometerem o nosso erro pois nunca conheceram outra forma de viver. Seguem as nossas pisadas, porque foi isso que lhes ensinámos, amando o corpo por aquilo que nunca será ou já foi, e nunca por aquilo que é. O presente é destruído pela recusa em abraçar o passado e o futuro. E eis que o ciclo da falta de compaixão/amor próprio se mantém inalterável e transversal a meninas, adolescentes, jovens, mulheres adultas e idosas.

Todas as pinturas são de Mary Cassatt (1844-1926).

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