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Não me recordo da idade que tinha mas não devia ter mais que uns dez anos. A minha mãe decidiu que estava na altura de aprender a usar uma agulha e passou-me um bastidor para as mãos. Ainda recordo essas tardes de Verão absolutamente entediantes. Primeiro, porque o pano era de um verde tão feio que me causava repulsa. Segundo, porque o desenho de flores não me interessava. Por fim, usar amarelo torrado em pano verde era demais para os meus sentidos. Mas, e nem sei como, consegui concluir o bordado. Levei imensas semanas porque a minha mãe obrigava-me a desmanchar sempre que verificava que tinha feito pontos com o comprimento de fósforos para me despachar mais depressa. Esse encontro fugaz com o mundo dos bordados foi o suficiente para o ter desprezado durante as duas décadas seguintes. Que utilidade poderia existir em algo tão antiquado?

No fim do Inverno passado costurei um vestido para a minha filha. Após a sua confecção arrependi-me da escolha do tecido. Escuro e sem graça para uma menina de 5 anos, parecia estar fadado a ficar arrumado para sempre no roupeiro. Dois anos antes, num ataque pleno de loucura, tinha adquirido um livro de bordados. Ainda não sei o que me levou a fazer tal compra mas ainda bem que a fiz. Esta semana, quando os meus olhos pousaram na lombada do livro tive a certeza do que fazer. Preparei o tecido, fui buscar a caixa das linhas de bordar e comecei. Nunca, até hoje, teria atribuído ao acto de bordar qualidades  relaxantes e encantatórias. Mas foi exactamente o que senti enquanto a agulha ia preenchendo com linha colorida os motivos. No fim, salvei o vestido e entendi que há certas coisas inúteis que o são apenas porque ainda não descortinámos a sua essência. Mesmo que a sua essência se remeta unicamente ao estatuto do belo (ou piroso para outros olhos), essa é uma utilidade mais que suficiente.

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Motivos retirados do livro “Doodle Stitching: The Motif Collection” de Aimee Ray

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