Há meses que penso em escrever algo sobre este tema mas acabo, invariavelmente, por me afastar do computador e interromper a sucessão de frases que se formam na minha mente.

É um tema que sempre me trouxe dissabores e até despoletou o término de amizades. Amizades femininas. Este facto, até hoje, não cessa de me surpreender.

Se, por um lado, o feminismo tem sido conotado negativamente, por outro lado, a sociedade actual (sobre)vive de um saudosismo compreensível pelo passado (despoletado pela crise e por várias mudanças após a entrada no novo milénio) que agudiza comportamentos misóginos. Reflexo disso foi a frase lamentável do locutor de um canal de televisão que fez um jogo de palavras infeliz acerca de um deputado. Muitos viram-no como um comentário homofóbico. No entanto, não foi apenas uma piada acerca da orientação sexual do deputado. Foi um insulto a todas as pessoas do sexo feminino. Passo a explicar. Insinuar que um homossexual poderá ser “mulher” é uma afirmação através da qual o sujeito declara que a condição de mulher é inferior à de homem, neste caso heterossexual. Que sendo homossexual só poderá ser comparado à mera nulidade do universo feminino e dos seus “floreados” a que é sempre associado.

No que toca à misoginia e à desigualdade de género tenho verificado que também é prática corrente de muitas mulheres. Afirmações como “o homem é superior”, “a mulher deve ser submissa porque o homem é o líder/cabeça/chefe do casal”, “as mulheres não têm jeito para isso”, “vê-se mesmo que é mulher”, “outra loura burra” apenas perpetuam o ciclo da desigualdade.

Será assim tão inconcebível imaginar uma sociedade onde homens, mulheres e transsexuais são respeitados e olhados como iguais, semelhantes? Acabará o mundo por todos viverem em igualdade? A verdade é que os homens não são nem de Marte e nem as mulheres de Vénus. Ambos são seres humanos com  diferenças óbvias referentes ao seu sexo. Tudo o resto são condicionantes sociais perpetuadas ao longo de gerações que mantiveram, de forma bastante hábil, uma hierarquia rígida baseada, primeiramente, na questão do género.

Uma sociedade não poderá ser verdadeiramente democrática enquanto existirem e se reproduzirem comportamentos de discriminação contra seres humanos.  Afinal, de que têm tanto medo aqueles que são contra a igualdade de género?

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