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As notícias sobre os refugiados continuam e o drama humano das pessoas que tentam cruzar o mediterrâneo e/ou atravessar a fronteira de vários países para chegarem à Europa é atroz. Qualquer pessoa com coração não consegue deixar de se comover face à situação terrível em que vivem estes novos imigrantes.

No entanto, e as redes sociais são muito propícias a isso, os comentários contra a “invasão” de seres humanos que fogem da guerra, fome, tortura, raptos, escravatura e da morte, sobem de tom. À crueldade e tom claramente xenófobo e racista de quem emite tais opiniões adiciona-se a cobardia de emitir juízos de valor que, em público, nunca seriam proferidos. A liberdade de expressão tem destas coisas. Qualquer um pode escrever que os imigrantes deveriam ser atirados para câmaras de gás, ou que deveriam ser corridos a pontapé uma vez que, islamismo é igual a terrorismo. A memória colectiva das pessoas que estão na casa dos 30 tornou-se num espaço restrito à tolerância. Advogam a liberdade e direitos para os animais mas, no entanto, hipocritamente, recusam ter esse discurso com o próximo, com o outro, o ser humano. Liberdade, igualdade e fraternidade são meras palavras que adornam uma já muito esquecida revolução.

Possivelmente ainda estamos a viver as ondas de choque do 11 de Setembro. O mundo acordou para uma realidade, em muito falsificada, onde os árabes são terroristas e, ultimamente, a islamofobia tem alargado o espectro de adeptos. Os que acusam o Islão de ser a religião por detrás de ataques terroristas, de violações terríveis de mulheres e de crianças, de escravatura forçada e outros horrores esquecem que, não há muito tempo atrás, o sinal da cruz aterrorizava nações.

Se são as religiões que perpetuam o mal, sobre isso não vou comentar. A minha opinião nesse aspecto é demasiado pessoal e possivelmente afectada pela minha experiência de vida. No entanto, há algo comum no acto do mal, seja ele qual for. O ser humano. Todos nós temos uma fonte inesgotável de fazer o mal e o bem. Se alguém é culpado dos horrores que provocam a fuga em massa de milhares de pessoas, é o ser humano. Homens e mulheres específicos que há muito perderam o sentido quer de justiça quer de compaixão que se sentem bem e confortáveis quando provocam dor ao seu semelhante.

Se isso já é suficientemente chocante, como não é possível sentir ira quando pessoas, nascidas num estado democrático, desejam que os imigrantes, pessoas de carne e osso, se vão embora e voltem para os países de origem onde lhes espera a tortura e morte certa? Como é possível que a nossa sociedade tenha falhado tanto em educar as pessoas para o civismo? Considero a democracia morta. Quando a extrema-direita está cada vez mais activa, quando permitimos discursos de ódio contra pessoas cujos únicos crimes são o de terem nascido noutro país e terem outra religião, a esperança de ter uma democracia viva para os nossos filhos e netos é um mero sonho que nunca se irá concretizar. O amor morreu. Bem vindos ao terrível mundo novo.

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