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A crise que varre a Europa e que se instala sem dó na Península Ibérica tem dado azo a várias leituras. A leitura mais positiva é aquela que, apoiando-se na etimologia, declara a crise corrente como uma oportunidade. Imensas oportunidades surgiram, sem dúvida. Basta procurar e verificar a quantidade de blogues pessoais e outros sites que se dedicam a ensinar os internautas nas lides da poupança, da vida simples e minimalista e do saber fazer. Está na moda voltar para o campo ou trazer o campo para a varanda, terraços e janelas. Nunca como agora as pessoas se preocupam com o que ingerem e de onde vêm os seus produtos. Várias notícias veiculadas pelos media trouxeram à tona a realidade triste do trabalho escravo que mantém a indústria do vestuário, calçado e acessórios bem oleada. E soluções mais ou menos imediatas são colocadas em cima da mesa. Uma delas é o saber fazer. Saber fazer roupa, comprar local, apostar no cultivo da terra, em suma, abraçar o conhecimento que ficou guardado nas aldeias e usá-lo nas cidades como forma de sustentabilidade social e ambiental. E assim resolve-se a crise ou, melhor ainda, aprende-se a viver com menos aproveitando mais a vida e a sua simplicidade. Pelo menos é isso o que se tenta fazer crer. Parece haver nesta forma de pensamento um retorno velado a outros tempos. Os belos tempos onde os pobres desfaleciam de tanta felicidade e de contentamento por cavarem a terra.

Ao contrário do que nos dizem a crise presente não pode e não deve ser comparada aos bons tempos dos nossos avós e bisavós. Porque esses não eram bons tempos. A vida simples era constantemente bombardeada por discriminação social, por abusos de poder e por fome tremenda. E quanto a isto pouco há a dizer se considerarmos que neste presente tempo há quem já estivesse em crise há muito. Há quem se ofenda com as exortações bem intencionadas de “menos é mais” ou de promessas utópicas de uma “vida simples”. A poupança, o saber fazer, a vida simples está vedada a quem não tem o que poupar e por consequência o “aprender a saber fazer” fica bastante limitado às condicionantes financeiras. A vida simples por quem já a vive de forma forçada não é bela e tão pouco romântica. Vivemos numa espécie de esquizofrenia social onde está na moda levar a marmita para o trabalho, comprar roupa em segunda mão e outras coisas. O necessário virou moda e ganhou glamour. Menos para quem sempre viveu assim e sonha com uma vida que seja, de facto, verdadeiramente simples e menos complicada. 

Apesar de ser uma adepta do saber fazer compreendo que se trata de um privilégio ter as ferramentas e a logística necessária para fazer comida caseira e dedicar-me a várias manualidades.  Não sou contra o retorno ao saber fazer mas, sim, sou contra a desigualdade social e a ascensão das típicas artes manuais e caseiras a uma espécie de nicho só ao alcance de quem não sabe que já tem uma vida simples.

E de vida simples aqui se falará. Simplesmente.

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